Introdução à Cronoanálise com Exemplo

Sumário

Introdução à Cronoanálise
Etapas de um estudo de cronoanálise
Enunciado do Exemplo
Medição dos tempos
Avaliação do Ritmo e Concessão de Tolerâncias
Cálculo do Tempo Padrão
Determinação da Capacidade
Considerações Finais
Download de Arquivos

Se você preferir, assista à vídeo aula que explica os conceitos sobre cronoanálise e a resolução do exemplo:


Introdução à Cronoanálise

A cronoanálise é a abordagem mais comumente usada nos estudos de tempos. Ela é caracterizada pelo uso de cronometragem para determinar o tempo padrão de uma operação. Trata-se de uma técnica muito comum em ambientes industriais com tarefas repetitivas, sendo empregada para determinar metas de produção, estimar a capacidade produtiva e determinar custos de mão de obra.

Mas o que é o tempo padrão? Muitas pessoas cometem o erro de pensar que o tempo padrão é o tempo que um funcionário muito ágil e rápido precisa para fazer todas as etapas de uma operação. Esse pensamento é errôneo, pois se adotarmos como padrão o tempo de um funcionário muito ágil, dificilmente os demais funcionários conseguirão atingir esse padrão. Portanto, esse tempo não é útil para obtermos boas estimativas da capacidade produtiva ou para determinar metas realistas para a força de trabalho.

O tempo padrão deve ser visto como o tempo necessário para uma pessoa qualificada e bem treinada, trabalhando em ritmo normal, executar uma tarefa especificada. Além disso, o tempo padrão deve incluir o tempo gasto com paradas para descanso devido à fadiga, necessidades pessoais e outras paradas inevitáveis que compõem o tempo de trabalho do funcionário.

Neste artigo vou explicar por meio de um exemplo o procedimento básico para realização de estudos de tempo com cronoanálise. Apesar de simples, o exemplo proporciona uma visão geral de todo o procedimento de cronoanálise. Em artigos futuros tratarei sobre variações desse procedimento básico.

Etapas de um estudo de cronoanálise

Um estudo de tempos usando cronoanálise pode ser dividido em seis etapas, conforme mostra a figura a seguir.

Cronoanálise - Passo-a-passo

A primeira etapa envolve a divisão da operação sendo estudada em elementos para facilitar a medição do tempo. Deve-se tomar muito cuidado nesta etapa, pois os elementos não podem ser nem muito longos, nem muito curtos. Elementos muito curtos dificultam a cronometragem. No caso de elementos muito longos, o analista de tempo poderia considerar subdividi-lo em elementos menores para aumentar o grau de detalhamento do estudo.

É importante que os elementos sejam definidos de forma que seu início e término sejam bem claros para o analista, evitando assim erros de cronometragem e aumentando a confiabilidade dos resultados.

A segunda etapa consiste na escolha do operador que participará do estudo. O analista deve escolher um trabalhador que tenha um desempenho considerado normal para facilitar a avaliação do ritmo. O supervisor da operação pode ser consultado para indicar o operador adequado ao estudo.

Após isso, as medições de tempo devem ser feitas ao longo de 10 a 20 ciclos. Cada ciclo corresponde à realização de todos os elementos pertencentes à operação.

As medições de tempo devem ser usadas para verificar se o operador trabalhou de maneira consistente ao longo de todos os ciclos. Os dados também devem ser analisados para verificar se a quantidade de ciclos observados é suficiente, ou se mais observações são necessárias.

Nas últimas duas etapas, o analista deve avaliar o ritmo do operador observado e determinar as tolerâncias da operação. Com isso, será possível calcular o tempo padrão e a capacidade produtiva. As fórmulas e passos para determinar o tempo padrão serão discutidas durante a resolução do exemplo.

Enunciado do Exemplo

Para entender melhor as etapas para calcular o tempo padrão, vamos considerar a seguinte situação:

Um operador é responsável pela separação de pedidos a serem atendidos em um armazém. O sistema de informação possui a relação de todos os pedidos pendentes. Para cada pedido o operador separa os itens solicitados, coloca-os numa caixa, imprime uma etiqueta com o destinatário e coloca a caixa em uma esteira.

Tal situação é muito comum em empresas que precisam atender muitos pedidos de clientes todos os dias. Neste exemplo, vamos considerar que 1.800 pedidos devem ser processados diariamente e vamos calcular quantos funcionários a empresa precisa alocar nesta operação.

O primeiro passo para realizar o estudo de cronoanálise é dividir a operação em elementos. Para isso, é necessário que o método atual de trabalho seja observado in-loco pelo analista, que em seguida fará a subdivisão em elementos para facilitar a cronometragem. Neste exemplo, suponha que a operação tenha sido dividida em 5 elementos, como mostra a figura abaixo.

Cronoanálise - Divisão em elementos

Medição dos tempos

Após dividir a tarefa em elementos, o analista deve escolher o trabalhador que participará do estudo de tempos. O funcionário escolhido deve ser capacitado no método em estudo. Ele deve ser instruído do objetivo do estudo de tempos e ser informado que pode trabalhar em seu ritmo normal. É comum funcionários que funcionários tentem “enganar” o analista de duas formas: em alguns casos, ele trabalhará rápido demais, achando que o objetivo do estudo é avaliar seu desempenho na função; em outros casos, o funcionário poderá trabalhar muito lentamente, para forçar o aumento do tempo padrão da operação. Por isso, a escolha do operador deve priorizar aqueles que já participaram de estudos anteriores e possuem um espírito de colaboração com a empresa.

O funcionário escolhido deve repetir a operação em seu ritmo normal ao longo de 10 a 20 ciclos para que uma medição preliminar dos tempos seja obtida. Em nosso exemplo, considere que 10 ciclos tenham sido medidos, com os tempos dados na tabela a seguir:

Cronoanálise - Tabela de tempos

Cada ciclo corresponde à execução dos 5 elementos que compõem a tarefa. Em outras palavras, cada ciclo corresponde ao processamento de um pedido.

Note que os tempos da tabela acima estão em minutos decimais para facilitar o cálculo dos tempos médios. Se você tiver alguma dificuldade em lidar com minutos decimais, leia este artigo.

Avaliação do Ritmo e Concessão de Tolerâncias

Após realizar as medições de tempo, o analista precisa avaliar o ritmo do trabalhador observado. Esta é uma das etapas mais difíceis do estudo de tempo, pois está sujeita a um alto grau de subjetividade. O ritmo do trabalhador deve ser avaliado usando um fator de ritmo, tomando como referência 100% para um trabalhador em ritmo normal.

Se o analista considerar que o trabalhador observado teve um ritmo mais lento que o considerado normal, uma avaliação inferior a 100% deve ser feita. Se o analista considerar que o trabalhador teve um ritmo mais rápido que o normal, uma avaliação superior a 100% deve ser concedida. Esse método pode parecer muito subjetivo e sujeito a falhas, mas se o analista de tempos tiver experiência e bom conhecimento sobre a atividade sendo estudada, há grande possibilidade que a avaliação do ritmo seja justa e precisa.

O analista também deve determinar as tolerâncias que serão dadas para cobrir o tempo gasto pelos trabalhadores com necessidades pessoais e descanso devido à fadiga básica. Em operações que envolvam baixo grau de esforço físico e que ofereçam uma posição confortável de trabalho, é comum conceder entre 7% a 10% de tolerância. Valores maiores devem ser concedidos caso a tarefa envolva maiores graus de esforço físico ou quando o trabalhador precisa ficar em posições desconfortáveis, tais como inclinar o corpo ou levantar pesos com frequência.

Cálculo do Tempo Padrão

Para calcular o tempo padrão, é necessário ter em mãos as medições dos tempos, a avaliação do ritmo do operador observado e a definição das tolerâncias que serão concedidas para a atividade em estudo. A figura a seguir ilustra o passo a passo para determinar o tempo padrão.

Cronoanálise - Método tempo padrão

As medições de tempo permitem o cálculo do tempo observado (TO) da operação. Esse tempo observado permite estimar quanto tempo o trabalhador que participou do estudo leva em média para executar cada elemento da operação. Veja na figura abaixo que o tempo médio de cada elemento pode ser obtido calculando a média dos valores de cada coluna.

Cronoanálise - Tempo observado

Após somar os valores médios dos elementos, podemos concluir que o funcionário estudado levou, em média, 2,76 minutos para realizar cada ciclo. No entanto, este valor ainda não considera a avaliação do ritmo de trabalho do operador e a concessão de tolerâncias.

Suponha que o analista tenha avaliado o ritmo do trabalhador como 95%, ou seja, considerou que o ritmo observado foi um pouco abaixo do ritmo de um trabalhador normal. A avaliação de ritmo deve ser usada para determinar o Tempo Normal (TN) da operação. Isso é feito da seguinte maneira:

Cronoanálise - Tempo normal

Com isso, sabemos que um operador trabalhando em ritmo normal levaria 2,622 minutos para realizar cada ciclo. Neste caso, o tempo normal (TN) é menor que o tempo observado (TO). Isso é natural, pois como o trabalhador estudado foi avaliado como mais lento que o normal, um trabalhador em ritmo normal fará o mesmo trabalho mais rapidamente, ou seja, precisará de menos tempo. Esse é um dos aspectos que mais confundem os iniciantes em estudos de tempo. Para facilitar o entendimento, basta lembrar-se das duas regras seguintes:

Observação 1: Se o ritmo for menor que 100%, o tempo normal (TN) será menor que o tempo observado (TO), pois um funcionário em ritmo normal (100%) faria a tarefa mais rapidamente (demoraria menos tempo)

Observação 2: Se o ritmo for maior que 100%, o tempo normal (TN) será maior que o tempo observado (TO), pois um funcionário em ritmo normal (100%) faria a tarefa mais lentamente (demoraria mais tempo)

Para chegarmos ao Tempo Padrão (TP), precisamos adicionar as tolerâncias ao Tempo Normal (TN). Em nosso exemplo, considere que uma tolerância de 10% será concedida para a operação de processamento de pedidos. O tempo padrão pode ser calculado da seguinte maneira:

Cronoanálise - Tempo padrão

Assim, chegamos à conclusão que o tempo padrão para processar um pedido é de 2,8842 minutos, o que equivale a 2 minutos e 53 segundos. Esse é o tempo que deve ser usado no planejamento da capacidade dos funcionários e definição dos custos de mão de obra direta dessa atividade.

 

Determinação da Capacidade

Imagine que os funcionários trabalhem 8 horas por dia, o que equivale a 480 minutos de trabalho. Isso significa que um funcionário trabalhando em ritmo normal será capaz de processar 166 pedidos.

Cronoanálise - Capacidade

Essa estimativa já considera os 10% do tempo gasto com tolerâncias. Podemos considerar que 166 pedidos processados por dia é uma estimativa justa e realista para um trabalhador treinado trabalhando em ritmo normal.

Anteriormente, dissemos que a empresa sendo estudada precisa processar 1.800 pedidos por dia. Isso significa que a empresa precisará ter 11 funcionários trabalhando na área de processamento de pedidos.

Cronoanálise - Funcionários

Considerações Finais

Neste artigo utilizamos um exemplo simples para entender o procedimento básico de um estudo de cronoanálise. Se você conseguiu entender bem este exemplo, você está apto a estudar algumas variações dos estudos de cronoanálise.

É importante destacar que este exemplo pulou uma etapa muito importante, que diz respeito à avaliação da estabilidade das avaliações e determinação do tamanho da amostra. Isso foi feito para simplificar as explicações do procedimento básico. Porém, um estudo completo de cronoanálise não pode deixar de considerar essas duas etapas.

Referências

BARNES, R.M. Estudo de movimentos e de tempos: projeto e medida do trabalho. São Paulo: Edgard Blücher, 1977.

FREIVALDS, A.; NIEBEL, B. Niebel’s Methods, Standards, and Work Design, McGraw-Hill, 2013.

KANAWATY, G. Introduction to work study. Geneva: International Labor Organization, 1992.

Download de Arquivos

[PDF] Slides usados na vídeo-aula

[XLSX] Dados do exemplo resolvido

Siga nosso blog e curta nossa página!

6 thoughts on “Introdução à Cronoanálise com Exemplo

  1. Prof, Rafael, boa tarde !!
    Vídeo bem didático.Parabéns. Para ser completo poderia explicar sobre NIVELAMENTO no próprio exemplo de cronometragem mostrado; faltou falar sobre os TEMPOS INCÍCLICOS ( Frequência explo.: 1/10) e que não se aplica avaliação de ritmo em TEMPOS MÁQUINA. Apenas minha opinião colaborativa.

    Grato, Josué.

    1. Prezado Josué, obrigado pelo retorno!
      Num futuro breve vou preparar outro post sobre aspectos avançados de cronoanálise, no qual vou abordar temas como os que você propôs.
      Também vou explicar em vídeos futuros questões como a determinação do tamanho de amostras e a importância da estabilidade das medições.
      Abraço!

  2. Boa tarde!

    Professor ótimo artigo, uma dúvida: esse enssinamento de cronoanálise é baseada em lean-manufacturing?

    Abraço!

    1. Francisco, tudo bem?
      A cronoanálise surgiu em um contexto muito anterior ao pensamento lean. No entanto, se considerarmos que a manufatura enxuta busca a redução de desperdícios, os estudos de tempos podem ser muito úteis para reduzirmos desperdícios de tempo com movimentos desnecessário. Além disso, quando sabemos o tempo padrão, conseguimos planejar melhor, evitar falta de produtos e atrasos nas entregas.
      É por isso que alguns livros e cursos sobre lean-manufacturing ensinam a cronoanálise como uma das ferramentas lean.
      Abraço!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *